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Morte em dia de Consciência Negra

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Todo ano é a mesma coisa. Chega novembro e pautas de todo teor relacionadas às vidas negras começam a pintar na minha caixa de mensagem, WhatsApp, conversas de corredor.

Entre as muitas críticas que tenho pro fazer jornalismo no Brasil é que ele funciona numa lógica de 'marcos': falamos sobre 'W' no 'Dia Internacional de 'W'; fechamos VT de 'X', no mês em que 'X' completa 100 anos; entrevistamos 'Y' no ano em que 'Y' conseguiu grande feito; produzimos especial de 'Z', quando 'Z'... morre.

E, ao contrário disso, acredito que certos assuntos deveriam ser batidos e rebatidos todos os dias. Ainda mais em uma sociedade tão racista e de agires tão brancocentrados como a brasileira. 

A ideia para o 'marco' 20 de novembro na GloboNews - canal para o qual trabalho desde 2018 - era abordar Educação como ferramenta de redução de desigualdades e de elevação do ser e viver negros.

Mas, 2020, né? Esse ano pavoroso que nunca começou e que já poderia ter terminado. Adivinhem o que aconteceu na véspera do Dia da Consciência Negra no Brasil? 

Um homem negro, João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, foi assassinado por dois homens brancos no Carrefour de Porto Alegre. 

Espancado até a morte. Em meio a gritos de socorro. Socorro impedido pelos próprios "seguranças". Seguranças? Eu prefiro chamar de trogloditas, brutamontes, carniceiros animalescos, criminosos, imundos. 

Alguns consideram a morte de um preto no dia de Zumbi dos Palmares uma 'ironia do destino'. Eu chamo de 'acontecimento previsível', 'repetição', 'lugar comum'. A morte de um homem negro por brancos já não é mais novidade, 'é massacre'.*

Homens e mulheres são mortos TODOS OS DIAS. A diferença é que, para algumas dessas mortes, há registro. E o registro da morte do João Alberto é revoltante, é doloroso, sanguinolento, é de embrulhar o estômago, baixar imunidade. Mas é extremamente necessário que seja visto em looping, principalmente se você é branco e privilegiado. É necessário. 

"Ah, mas e os criminosos negros que matam os 'cidadãos brancos de bem'?"

Te digo:

É morto o homem negro que não tem a liberdade de voltar vivo do mercado. 
É morto o homem negro que não tem a liberdade de escolher a própria vida e se leva à marginalidade. 

O homem preto morre até quando mata.

Voltando ao jornal. Nossa escolha foi falar de educação com foco na educação antirracista de negros e não negros. 

Publicamos, em meio às repercussões das imagens de João Alberto sendo espancado no mercado, sonoras de três pessoas veneráveis**. Elas falaram sobre educação afrocentrada, a função dela na emancipação do ser enquanto negro e da importância da memória para educar e conscientizar jovens negros. 

Mesmo em meio a dor da morte, foi necessário falar dessa educação. Porque só uma educação antirracista vai ser capaz de mudar olhares: os que perseguem o João no mercado; os que tiram das pessoas negras a possibilidade de ascender na carreira por causa da cor; os que 'relegam negros e negras a todo tipo de sorte'***; os que desconsideram a história da negritude diaspórica como protagonista e, não como coadjuvante a uma branquitude colonizadora.

A educação antirracista poderia evitar falas negacionistas indigestas. 

"..ainda não há indícios de racismo", disse a delegada que investiga a morte do João Alberto.
"Eu digo para você com toda tranquilidade: não tem racismo [no Brasil]. Eu digo isso para vocês porque eu morei nos Estados Unidos. Racismo tem lá. (...) Aqui o que existe é desigualdade", concluiu o vice-presidente do Brasil sobre o caso João Alberto.
"..[há uma] tentativa de importar para o nosso território tensões alheias à nossa história", enfatizou o presidente da república em uma conferência do G20.

Como não enxergar o racismo? Como nos atrevemos a não rastrear minuciosamente as veias que alimentam esse câncer tão violento? Será preciso mesmo aguardar um marco - como a morte - para debatermos negritude e privilégio? É esse o nosso papel enquanto jornalistas? Enquanto cidadãos? 

Não é só o nosso racismo que mata. 
O nosso conformismo mata também. 

*do gênio Octávio Guedes via Twitter
**que vou publicar mais pra frente aqui no site.  
***da incrível Bárbara Carine, idealizadora da Escolinha Maria Felipa, de ensino decolonizador, em Salvador/BA.

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