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Um dólar por dose. Uma vida, seis reais.

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Já era noite, na cama, quando dei a minha última checada nas notícias antes do descanso merecido. 

Dia longo, jornal denso, corrido. Em casa, as tarefas também consomem. Assim que a primeira piscada mais profunda do meu filho chega, o travesseiro vira mesa de trabalho, terceiro turno do dia. 

Começo sempre pelos tuítes, para saber se o mundo continua de cabeça para baixo. 

Sim, continua: 

 "GOVERNO BOLSONARO PEDIU US$1 POR DOSE, DIZ VENDEDOR DE VACINA"

Corro pro site. O descanso já ficou pra segundo plano. 

Os olhos passam pelas palavras da colega Constança Rezende. E, quanto mais avanço na reportagem, mais meu estômago se embrulha.

Luiz Paulo Dominguetti, da Davatti Medical Supply, relatou à Constança o seguinte diálogo com o diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias: 

"Eu falei que nós tínhamos a vacina, que a empresa era uma empresa forte, a Davati. E aí ele falou: 'Olha, para trabalhar dentro do ministério, tem que compor com o grupo'. E eu falei: 'Mas como compor com o grupo? Que composição que seria essa?'".

A 'composição' era propina. Era aumentar em um dólar o preço da vacina a ser vendida no Brasil. Um dólar de propina para cada dose repassada ao Ministério da Saúde do atual governo.

Corrupção no Brasil na área de Saúde não é novidade. Ela existe desde sempre. E não dá pra pesar o que é pior, se roubar em pandemia, se roubar em qualquer outro momento das nossas vidas de miséria brasileira. 

Mas é PANdemia!!! E as exclamações aqui, são para atribuir meu espanto. 

São pessoas em todo o planeta vivendo o mesmo desespero, a mesma incerteza, o mesmo pavor: 

Numa escala global, quase 4 milhões pessoas morreram até o momento dessa publicação. Cerca de 12% dessas vidas foram perdidas aqui no Brasil: 516 mil mortos por Covid-19. Isso corresponde a mais de 500 mil famílias que hoje choram e convivem com a ausência. Algumas, perderam até mais de um ente: pai, mãe, irmão, FILHO. 

Um parênteses aqui: como mãe, não imagino a dor de perder um filho. 

Enquanto governos mundo afora estavam empenhados em encontrar uma vacina para a Covid-19, o governo brasileiro trabalhava pesado no negacionismo, deixando uma população inteira sem saber o que fazer e como pensar. 

Até fevereiro, 250 mil pessoas já tinham morrido. 


Foi nesse momento da pandemia que uma conversa acontecia em um shopping, assim, bem banal mesmo. Um café, num local público, um pedido: US$1 dólar por dose.

Uma conversa de negócios como outra qualquer, mas que, como nenhuma outra qualquer, poderia ter poupado vidas. Hoje sabemos, 250 mil delas ainda estavam para morrer. 

"Pensa direitinho, se você quiser vender vacina no ministério tem que ser dessa forma".

Dói e choca. Ainda nesse Brasil corrupto, é aterrorizante pensar que não existe limites para o enriquecimento ilícito. 

De tudo, me resta classificar como completamente vil enriquecer às custas de vidas. Desumano por completo é pensar em aumentar o próprio patrimônio e o dos seus enquanto se nutre uma esperança global por imunidade. E olha que estamos falando de uma proteção que ainda não dá garantia de vida, mas reduz as chances de morte e casos graves de uma doença cruel. Que mata sem ar. Asfixiado. Sufocado. 

Durmo ali, assim, na minha mesa-travesseiro, de peito apertado. Não de Covid. Ainda bem. De vergonha. De raiva inconsolável e de ódio sem controle. 

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